quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Resumo: Ética e compromisso em Luuanda

MARTIN. Vilma Lia de Rossi. Ética e compromisso em Luuanda. In. Marcas da diferença: as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.




 
Por: Vanessa Severino Bardini. Aluna de Graduação de Letras Português Inglês da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP-CP)
            As obras literárias só têm o seu sentido estabelecido quando em interação com o público leitor, no momento em que lhe são atribuídas significações e inferências que “completam” o trabalho do escritor.  É uma relação que se concebe geralmente em planos distintos, mediada por critérios de tempo, de espaço e de cultura.  Porém essa vinculação pode ser reduzida na medida em que o texto literário represente “uma ponte”, entre o leitor e o autor, quando esse contempla questões sociais, como fatos políticos e culturais. Tais aspectos podem ser reconhecidos na obra do autor angolano, Luandino Vieira, que procura representar em sua arte literária a construção de uma identidade nacional, “reivindicando para isso, autonomia política, cultural em relação a então metrópole portuguesa” (p.197).Reconhece-se em Luandino Vieira, um dos maiores e mais importantes militantes do período de lutas contra a colônia portuguesa. “Participante da geração da cultura” (p.198), foi preso “acusado de atividades anti-colonais”      passando alguns anos em um campo de concentração.No cárcere escreve Luuanda, obra de grande destaque que lhe concedeu o “Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores”. A literatura de Vieira, assim como de outros escritores inseridos no período de libertação da colônia portuguesa recorre à afirmação do caráter nacional e, sobretudo, mobilizar na sociedade, através da arte literária transformações no “cenário político, social e cultural de seu país” (p.198), a partir da edificação de uma consciência crítica nos indivíduos sociais. Em Luuanda, obra dividida em três diferentes histórias, o autor retrata “sua combatividade e convicção nas possibilidades de transformação do cenário de Angola” (p.199), reproduzindo “a complexidade das relações sociais, culturais e políticas” (p.199) do meio social. Deste modo, a leitura da obra Luuanda não pode ser feita sem reflexões, visto que é necessário um posicionamento crítico, já que a arte literária não é passiva, mas permeada de significações, logo devem ser lhe atribuídas reflexões e juízo de valores. Na escrita de sua obra literária, Luandino Vieira combina duas tradições a língua portuguesa (escrita) e a língua quimbundo (oral), que embora conflituosas, dispõem-se a instituir um posicionamento “ético diante da realidade de exclusão social” (p.200), ofertando tanto ao leitor quanto as personagens no decurso da narrativa, a oportunidade de construir uma consciência crítica perante a realidade social. A primeira narrativa do livro, “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos” retrata a história das personagens Zeca Santos e sua avó Vavó Xixi que não conseguem se enquadrar na sociedade colonial. Zeca, um moço alienado, de índole passivista denota uma “atitude derrotista” (p.201) frente à condição que se encontra imerso, não manifestando desejo de mudar a realidade social. Vavó assim como seu neto, vinculada totalmente ao passado, “não consegue ser sensível às demandas da revolução” (p.201), não demonstrando da mesma forma, posicionamento político e crítico perante a realidade. Logo, a narrativa pretende demonstrar, sobretudo a incompreensão da realidade na qual se encontra inseridas as duas personagens. A segunda história do livro, “Estória do ladrão e do papagaio” trata-se de uma narrativa que em sua composição, é “bem mais complexa do que a primeira” (p.202), pois não segue uma sequência cronológica. Dividida em seis partes relata acontecimentos em torno da história de um roubo de um papagaio, que resulta na prisão de dois homens Lomelino dos Reis e Garrido Fernandes. Porém, a história se desenvolve em torno do personagem, Xico Futa, condutor da narrativa e da temática principal que incute ensinamentos que consistem em perseguir “o fio da vida”. A intenção da personagem e de seus ensinamentos é mobilizar a busca pelo conhecimento em sua essência, explicando que tudo tem “uma razão de ser” (p.202) e que a vida é feita de escolhas, exemplificando a partir do uso de metáfora associada à constância do cajueiro. A narrativa no decorrer dos fatos pretende demonstrar “o desafio do povo angolano, o alcance e as limitações de seus anseios, na resistência e na luta cotidiana”. (p.203). A última narrativa do livro, “Estória da galinha e do ovo”, narrada em forma de causo,  relata uma desavença entre duas vizinhas, Nga Zefa e Nga. Bina, devido à galinha pertencente à primeira senhora ter colocado um ovo na propriedade da segunda, havendo, pois um desentendimento para ver com qual das duas ficaria o ovo. A desavença só é resolvida com a intervenção de dois meninos, Beto filho de Nga. Zefa, e seu amigo Xico que se valem de saberes idôneos proferidos pelas gerações mais velhas “ensinando os adultos a agirem de maneira mais consciente e coerente com os objetivo da luta contra o anti-colonialismo” (p.206). As histórias de Luandino Vieira revelam aprendizagens, assumindo valores éticos, granjeando um pensamento crítico perante a realidade social, promovendo através de sua escrita que perpassa “passado, presente e futuro, perfazendo uma trajetória que anuncia novos tempos” (p.207) a possibilidade de rever valores morais, demonstrando o mundo “tal como ele é”.

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